Douglas Gonçalves | Psicanalista & Hipnoterapeuta Clínico - Garibadi - RS
A Campanha Começou. O Seu Inconsciente Também.
Autoconhecimento

A Campanha Começou. O Seu Inconsciente Também.

Você estava rolando o feed quando apareceu. Um comentário. Uma imagem. O nome de um candidato numa frase que alguém escreveu com convicção. E antes de terminar de ler, algo dentro de você já havia reagido. Uma repulsa que antecedeu qualquer argumento. Uma raiva que surgiu antes da análise. Uma rejeição que não precisou de prova para existir. Você não decidiu sentir isso. Aconteceu. E aqui está o que raramente se pergunta diante dessa reação: o quanto ela diz sobre o candidato que você rejeita, e o quanto ela diz sobre você? Este artigo não toma partido. Investiga o mecanismo psíquico que a polarização política ativa: aquele que opera com a mesma intensidade em todos os campos, em todas as eleições, em todas as pessoas que acreditam estar respondendo apenas à realidade quando, na verdade, estão respondendo também a algo muito mais antigo do que esta campanha.

Introdução


Em 1933, Sigmund Freud observava de Viena o que estava acontecendo na Alemanha com uma perplexidade que seus textos anteriores não conseguiam mais explicar por completo. Hitler havia chegado ao poder. E o que intrigava Freud não era a crueldade do líder. Era a adesão. Eram os milhões de pessoas comuns, professores, médicos, pais de família, que haviam encontrado naquele projeto político algo que eles precisavam com uma urgência que a racionalidade não explicava.

O que Freud havia descrito em 1921 em "Psicologia das Massas" começava a mostrar sua face mais sombria: os grupos humanos não se coesionam apenas pelo amor ao que compartilham. Eles se coesionam, com frequência com mais intensidade, pelo ódio ao que rejeitam. O adversário tem uma função no psiquismo coletivo que o herói nunca terá. Ele organiza. Ele define. Ele une.

Cada eleição reencena essa dinâmica. Os candidatos mudam. Os programas mudam. A estrutura permanece.

A questão que este artigo investiga não é política. É psíquica. Por que a rejeição ao candidato adversário tem frequentemente uma qualidade visceral, pessoal e intransigente, que o simples desacordo racional nunca produz? De onde vem essa intensidade? E o que ela revela sobre quem a sente?

Fromm: O Peso de Pensar Sozinho


Antes de entender o que fazemos com o adversário político, é preciso entender o estado interno que torna a polarização atraente. E ninguém descreveu esse estado com mais precisão do que Erich Fromm.

Em “O Medo da Liberdade”, publicado em 1941, Fromm argumentou algo que contrariava a intuição comum: a liberdade de pensar por si mesmo, longe de ser sempre uma conquista desejada, frequentemente produz angústia. Num mundo complexo, contraditório e saturado de informação, a responsabilidade de analisar cada questão de forma independente é exaustiva. A incerteza se acumula. A dúvida cansa. E o psiquismo busca alívio.

A polarização oferece esse alívio de forma imediata e poderosa. Quando o mundo se divide em dois campos claros, o esforço cognitivo se reduz dramaticamente. Não é mais necessário avaliar caso a caso, nuance por nuance, contexto por contexto. Basta saber de que lado algo ou alguém está. A complexidade desaparece. A certeza ocupa seu lugar.

Fromm chamou esse movimento de fuga da liberdade. Uma fuga que não é covarde nem irracional. É humana. É a resposta de um psiquismo sobrecarregado que encontrou, no pertencimento a um campo com respostas prontas, o descanso que a autonomia de pensar não oferecia.

O que essa leitura muda completamente é o julgamento sobre o eleitor polarizado. Ele não está com preguiça de pensar. Está aliviado de não precisar mais. E esse alívio tem um preço que ele só perceberá depois: o adversário político passou a ter uma função que vai muito além da discordância.

Freud: O Adversário Que Você Precisa

Freud observou em seus estudos sobre a psicologia dos grupos algo que qualquer observador de campanha eleitoral reconhece intuitivamente: os grupos humanos precisam de um inimigo com uma urgência que frequentemente supera a necessidade do próprio líder.

O líder inspira. O inimigo une.

Em "Psicologia das Massas", Freud descreveu que a identidade coletiva se forma em parte por afirmação, pelos valores e projetos que o grupo compartilha, e em parte por negação, pelo que o grupo rejeita, condena e recusa reconhecer como seu. O adversário político cumpre essa segunda função com uma eficiência que nenhuma proposta de governo consegue igualar: ele diz ao grupo o que ele não é. E ao dizer o que o grupo não é, define com nitidez o que ele é.

Sem inimigo, a identidade coletiva perde fronteiras. Com inimigo, cada membro sabe exatamente onde está, com quem pertence e contra o quê luta. O adversário não é apenas um oponente político. É uma peça estrutural na arquitetura psíquica do grupo.

É por isso que campanhas eleitorais tendem a produzir mais ódio ao adversário do que entusiasmo pelo próprio candidato. É por isso que a notícia sobre o erro do campo oposto viraliza mais do que a conquista do próprio campo. É por isso que o debate político nas redes sociais frequentemente tem menos a ver com convencer o outro e mais com reafirmar, para si mesmo e para o próprio grupo, a clareza da divisão.

O adversário não é apenas alguém com quem você discorda. É alguém de quem você precisa para saber quem você é.

Jung: Você Projeta no Adversário o Que Não Aguenta Ver em Si Mesmo


Carl Gustav Jung descreveu um mecanismo que, quando compreendido, transforma completamente a forma de observar o próprio ódio político: a projeção da sombra.

A sombra é o conjunto de conteúdos que o sujeito não reconhece como seus. Impulsos, medos, tendências e aspectos que foram reprimidos ou nunca integrados à imagem que a pessoa construiu de si mesma. Esses conteúdos não desaparecem. Eles são projetados para fora, nos outros, nos grupos, nos adversários.

No contexto eleitoral, o candidato do campo oposto se torna a tela de projeção mais carregada disponível. Ele recebe, do psiquismo de quem o rejeita, uma carga emocional que raramente é proporcional ao que de fato representa. A corrupção que você não tolera no adversário e que existe, em formas distintas, também no seu campo. A intolerância que você condena no outro lado e que às vezes aparece no seu próprio discurso quando contrariado. O autoritarismo que você detecta no adversário e que também se manifesta na forma como você trata quem ousa discordar dentro do seu próprio grupo.

Grupos inteiros se entrechocam na dança das projeções cruzadas. Cada lado convicto de que o mal está do outro lado. Cada lado criando um superávit de mal no adversário em vez de integrar o que existe dentro de si mesmo.

Jung era preciso sobre as consequências disso: quanto mais insuportável é o que foi projetado, mais difícil é reconhecer que o que você vê no outro também existe, em alguma medida, dentro de você. E essa dificuldade não é fraqueza. É a natureza da projeção: ela opera exatamente por ser inconsciente.

O teste não é filosófico. É clínico: o que no candidato que você rejeita te incomoda com uma intensidade que supera qualquer análise racional? A resposta a essa pergunta diz menos sobre o candidato do que sobre o que você ainda não integrou em si mesmo.

Canetti: A Massa Que Se Une Para Perseguir


Elias Canetti identificou, em “Massa e Poder”, um tipo de formação coletiva que o contexto eleitoral polarizado ativa com frequência e que precisa ser distinguido da massa que celebra: a massa de perseguição.

A massa que celebra se une pelo amor ao objeto. Ela precisa de presença, de entusiasmo, de proximidade com o que venera. Quando o objeto amado some, ela se dissolve. A massa de perseguição funciona de forma radicalmente diferente. Ela se forma pelo ódio ao inimigo. E nesse funcionamento reside sua especificidade perturbadora: ela não precisa do inimigo presente. Precisa apenas da sua existência.

A simples existência do adversário político basta para manter a massa de perseguição coesa e ativa. Uma notícia sobre ele. Um comentário atribuído a ele. Uma imagem associada ao que ele representa. Cada um desses estímulos é suficiente para reativar o corpo coletivo, para restabelecer a fronteira entre o grupo e o inimigo, para renovar a sensação de que a luta é necessária e urgente.

Os algoritmos das redes sociais descobriram empiricamente o que Canetti descreveu teoricamente: a indignação retém mais do que a esperança. O ódio ao adversário gera mais engajamento do que o entusiasmo pelo próprio candidato. A perseguição une mais do que a celebração. E o conteúdo que ativa a massa de perseguição tem, para o psiquismo coletivo, uma qualidade viciante que o conteúdo positivo raramente alcança.

O custo só se percebe quando a campanha termina e a massa se dispersa. O indivíduo volta a ser ele mesmo, sozinho com o que ficou: o hábito da raiva, o reflexo da divisão, a dificuldade de ver o outro campo como composto por pessoas com motivações compreensíveis. Esse é o rastro que a massa de perseguição deixa no sujeito que a habitou por tempo demais.

Arendt: A Propaganda Encontrou Você Pronto


Hannah Arendt, em “Origens do Totalitarismo”, chegou a uma conclusão sobre a propaganda que desfaz completamente a ilusão de que o eleitor bem-informado está imune a ela: a propaganda eficaz não cria os estados psíquicos que explora. Ela os encontra prontos.

A angústia de Fromm já estava lá, esperando o alívio que a polarização oferece. A necessidade de inimigo que Freud descreveu já estava operando, procurando um alvo onde depositar a função que o adversário cumpre. A sombra que Jung mapeou já havia escolhido sua tela de projeção. A massa de perseguição que Canetti identificou já estava se formando, buscando o objeto que a tornaria coesa.

A propaganda eleitoral não fabrica essas dinâmicas. Ela as encontra, as nomeia, as direciona e as amplifica com uma precisão que se aperfeiçoa a cada ciclo eleitoral. Ela fornece o vocabulário, as imagens, os alvos e as narrativas que organizam o que já existia no psiquismo coletivo antes de qualquer campanha começar.

Isso não exonera a propaganda de sua responsabilidade. O uso deliberado desses mecanismos para fins políticos é uma escolha ética com consequências reais. Mas muda completamente a forma de resistir a ela.

Resistir apenas ao conteúdo externo da propaganda é insuficiente. É preciso reconhecer o que dentro de você já estava disposto a recebê-la. A angústia que tornava o alívio da polarização atraente. A necessidade de inimigo que o adversário veio satisfazer. A sombra que encontrou nele a tela perfeita. A massa que oferecia o que a solidão do pensamento individual nunca oferece.

Arendt chamou de desolação o estado em que o indivíduo perdeu a capacidade de confiar no próprio julgamento. E observou que a propaganda não precisa criar esse estado. Precisa apenas encontrá-lo.

O Que Este Ciclo Eleitoral Pode Revelar


A psicanálise não diz em quem votar. Isso pertence à consciência política, aos valores e à responsabilidade de cada cidadão.

O que ela oferece é uma pergunta diferente para cada eleitor, independentemente do campo em que se encontra.

O candidato que você apoia diz algo sobre o que você valoriza e sobre o futuro que você deseja. Isso é legítimo e necessário. Mas o candidato que você rejeita com uma intensidade que excede qualquer análise racional diz algo sobre sua sombra. Sobre o que foi projetado nele porque não pôde ser integrado em si mesmo.

A diferença entre essas duas intensidades, entre o entusiasmo pelo próprio candidato e a raiva pelo adversário, é um dado clínico. Quando a raiva é maior do que o entusiasmo, quando a identificação do inimigo motiva mais do que a construção do projeto, quando a simples menção do adversário ativa uma reação que antecede qualquer pensamento, algum mecanismo inconsciente está operando com mais força do que a escolha política consciente.

Reconhecer isso é diferente de adotar neutralidade ou afirmar que todas as posições são igualmente válidas. É apenas dar ao próprio psiquismo a mesma atenção crítica que você provavelmente dá ao psiquismo do eleitor do campo oposto.

O que você sente nesta campanha merece ser investigado com honestidade. Não para paralisar a ação política. Para que ela seja mais sua do que do mecanismo

Considerações Finais


Você estava rolando o feed quando apareceu.

E a raiva surgiu antes do argumento.

Essa raiva não começou com esta campanha. Ela tem uma história que antecede este candidato, esta eleição, este momento político. Ela vem da angústia que a liberdade de pensar sozinho produz. Da necessidade de um inimigo que organize a identidade coletiva. Da sombra que encontrou no adversário a tela perfeita para o que não pôde ser integrado em si mesmo. Da massa de perseguição que ofereceu o que a solidão do pensamento individual nunca oferece. Da propaganda que encontrou tudo isso pronto e soube o que fazer com ele.

Fromm descreveu a fuga. Freud descreveu a função do inimigo. Jung mapeou a projeção. Canetti identificou a massa. Arendt nomeou o estado que a propaganda precisa encontrar.

Nenhum deles disse em quem votar. Todos eles disseram a mesma coisa sobre o eleitor: você é mais do que sua reação imediata. E entre o estímulo e a resposta, há um espaço onde o pensamento ainda é possível e onde a escolha ainda é sua.

O inconsciente que esta campanha ativou não começou com ela. Ele tem uma história. E essa história, quando compreendida com a profundidade que merece, muda não apenas a forma como você vive as eleições. Muda a forma como você se relaciona com qualquer pessoa que pensa diferente de você.

Referências Bibliográficas


ARENDT, H. "Origens do totalitarismo" (1951). São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

CANETTI, E. "Massa e Poder" (1960). São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

FREUD, S. "Psicologia das massas e análise do ego" (1921). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

FROMM, E. "O medo da liberdade" (1941). Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

JUNG, C. G. "Os arquétipos e o inconsciente coletivo." In: Obras Completas, vol. 9/I. Petrópolis: Vozes, 2014.

 

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