Douglas Gonçalves | Psicanalista & Hipnoterapeuta Clínico - Garibadi - RS
O Cargo Mudou. A Sensação de Não Ser Suficiente, Não.
Autoconhecimento

O Cargo Mudou. A Sensação de Não Ser Suficiente, Não.

Você chegou onde queria chegar. Não foi por acaso. Foi por anos de esforço, de escolhas difíceis, de abrir mão de coisas que importavam para construir algo que importava mais. E chegou. O cargo, o reconhecimento, a posição que você havia definido como destino. E então, numa reunião, numa apresentação, num momento em que alguém te olha com expectativa genuína, a voz aparece. Discreta, mas precisa. Dizendo que é uma questão de tempo até descobrirem. Que os outros são mais preparados. Que o que você construiu foi sorte ou circunstância, não competência real. Que em algum momento alguém vai perceber que você não pertence àquele lugar. O cargo mudou. A voz não. Essa experiência tem um rótulo popular: síndrome do impostor. E o rótulo não é errado. Mas ele é insuficiente. Dar nome ao fenômeno não explica de onde ele vem. E sem compreender a origem, nenhuma conquista futura vai calar a voz. Ela não está respondendo ao cargo. Está respondendo a algo muito mais antigo. Este artigo é uma tentativa de chegar até essa origem.

Introdução


Em 1978, as psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes publicaram um artigo que descrevia com precisão algo que muitas pessoas viviam mas ninguém havia nomeado. Elas estudaram cerca de 150 mulheres de alto desempenho e encontraram um padrão consistente: apesar dos diplomas, das honras, dos cargos e do reconhecimento de colegas respeitados, essas mulheres não experimentavam um senso interno de sucesso. Acreditavam que não eram inteligentes. Que haviam enganado quem pensava o contrário. Que a qualquer momento seriam descobertas.

O artigo foi rejeitado por dezenas de revistas antes de ser publicado. Quando finalmente saiu, tornou-se um dos textos mais compartilhados da psicologia contemporânea. Todo mundo queria uma cópia para guardar e enviar para alguém que sofria disso também.

Décadas depois, o termo síndrome do impostor circula nas redes sociais com uma frequência que o banalizou. Virou hashtag, virou meme, virou autodiagnóstico rápido para qualquer momento de insegurança profissional. E nessa popularização, perdeu o que tinha de mais preciso: a investigação de onde vem essa sensação, por que ela persiste independentemente das conquistas e o que ela está dizendo sobre a história emocional de quem a vive. 

Porque nem todo profissional que se sente impostor está vivendo o mesmo fenômeno. E compreender a diferença muda completamente o que precisa ser feito. 

O Que Clance Descreveu e o Que a Popularização Perdeu


O fenômeno original descrito por Clance e Imes tinha características muito específicas. Não era simplesmente insegurança profissional. Era um ciclo estruturado: a tarefa chega, a ansiedade dispara, o sujeito trabalha compulsivamente ou procrastina até o último momento, entrega com sucesso, atribui o resultado à sorte ou ao esforço extremo e não à competência, e recomeça o ciclo com a próxima tarefa.

Em 1985, Clance sistematizou esse ciclo e identificou seis características centrais do fenômeno: o ciclo do impostor em si, a necessidade de ser especial ou o melhor, o aspecto de super-homem ou super-mulher que trabalha além do limite para compensar a suposta incompetência, o medo do fracasso e a negação da competência diante de elogios.

A sexta característica é a mais reveladora e a que a popularização perdeu completamente: o medo e a culpa pelo sucesso.

Essa última característica é a que a popularização perdeu completamente. A síndrome do impostor, em sua descrição original, não é apenas o medo de não ser suficiente. É também o medo de ser suficiente. O medo do que vem com o sucesso genuinamente reconhecido: a visibilidade, a responsabilidade, a expectativa de continuar sendo o que você provou ser.

Isso não é insegurança comum. É uma estrutura psíquica com história. E essa história começa muito antes da vida profissional.

Freud e o Ideal Que Nenhuma Conquista Alcança


Em 1914, Sigmund Freud publicou um dos textos mais densos e mais consequentes de sua obra: "Introdução ao Narcisismo". Entre os conceitos que ele introduziu naquele texto, um deles é central para compreender o que está por trás da sensação de não ser suficiente: o ideal do eu. 

O ideal do eu é a imagem do que o sujeito acredita que deveria ser, não do que é. Essa imagem é construída ao longo do desenvolvimento, a partir das expectativas do ambiente, das exigências dos cuidadores, dos modelos que a cultura ofereceu como parâmetro. E ela se instala como uma instância interna que observa, compara e julga o eu real permanentemente.

O problema não é a existência do ideal do eu. Todo desenvolvimento psíquico saudável envolve alguma forma de ideal, de horizonte em direção ao qual o sujeito se move. O problema é quando a distância entre o eu real e o ideal do eu é intransponível, quando o ideal foi construído num nível de exigência que nenhuma conquista real consegue alcançar.

É essa distância que a sensação de impostor habita. O cargo chegou. O reconhecimento chegou. Mas o ideal do eu exige mais. Sempre exige mais. Porque o ideal não foi construído para ser alcançado. Foi construído para ser perseguido. E nenhuma promoção, nenhum elogio, nenhuma conquista vai silenciar a voz que diz que ainda não é suficiente, porque essa voz não está avaliando o currículo. Está obedecendo a uma estrutura psíquica muito mais antiga. 

Winnicott e o Sucesso Que Pertence ao Personagem

Donald Winnicott oferece ao tema uma perspectiva que explica algo que a clínica revela com frequência: o profissional que alcançou o sucesso e ainda assim não se reconhece nele. 

O conceito de Falso Self descreve a estrutura defensiva que a criança constrói quando o ambiente não responde de forma consistente aos seus impulsos espontâneos. Quando o cuidador exige adaptação antes de oferecer acolhimento, quando a presença do afeto está condicionada ao desempenho, quando o ambiente comunica que ser quem se é não é suficiente para ser amado, a criança aprende a construir um personagem. Um eu adaptado que entrega o que o ambiente pede e protege, por trás dessa adaptação, o que é mais frágil e mais verdadeiro. 

Esse Falso Self não é uma escolha consciente. É uma sobrevivência. E durante a infância, frequentemente foi a estratégia mais inteligente disponível. 

O problema aparece décadas depois, quando esse profissional alcança um cargo que o Falso Self construiu, mas que o Verdadeiro Self não reconhece como seu. A conquista é real. A trajetória foi genuína. O esforço foi inegável. Mas o sujeito que chegou lá não se reconhece no que conquistou porque construiu tudo a partir de uma identidade adaptada, não de uma identidade autêntica. 

Daí a sensação de fraude. Não porque haja fraude. Mas porque há uma dissociação entre quem conquistou e quem se sente no direito de ter conquistado. A sensação de impostor, nessa leitura, não é autodepreciação irracional. É o Falso Self sinalizando que o Verdadeiro Self nunca foi convidado para essa conquista.

Horney e a Tirania Que Ninguém Nomeou


Karen Horney nomeou com precisão cirúrgica o mecanismo que opera por trás da insegurança que o sucesso não corrige: a tirania do dever. 

Em "Neurose e Desenvolvimento Humano", publicado em 1950, Horney descreveu como o sujeito neurótico constrói um eu idealizado com exigências que se tornam tirânicas. Não no sentido de caprichos ou preferências. No sentido de imperativos internos que não admitem negociação. Eu deveria sempre saber a resposta. Eu deveria nunca demonstrar incerteza. Eu deveria ser o melhor na sala. Eu deveria já ter chegado mais longe. 

Essas não deveriam ser metas. São acusações. E quando o eu real não os cumpre, o que Horney chamou de sistema de desprezo por si mesmo entra em ação: o sujeito não apenas constata que ficou aquém do ideal. Ele se condena por ter ficado. 

Essa estrutura explica o que acontece quando o profissional recebe um elogio e o minimiza, quando alcança uma conquista e imediatamente move o alvo para mais longe, quando ouve que foi bem e pensa que a outra pessoa não entendeu direito. Não é falsa modéstia. É a tirania do dever operando com toda a sua intensidade: o eu idealizado sempre exige mais do que o eu real consegue entregar, e a distância entre os dois é vivida não como desafio, mas como prova de inadequação fundamental. 

Horney também observou algo que a clínica contemporânea confirma repetidamente: essa tirania não foi inventada pelo próprio sujeito. Foi instalada por um ambiente que condicionou o reconhecimento ao desempenho. Que amou com condições. Que ensinou, de formas verbais e não verbais, que o valor de uma pessoa é proporcional ao que ela produz. 

O profissional que nunca se sente suficiente não está com um problema de autoconfiança. Está cumprindo uma aprendizagem muito antiga sobre o que precisa fazer para merecer estar onde está. 

O Que o Sucesso Não Corrige


Aqui está o ponto que nenhuma lista de dicas para superar a síndrome do impostor alcança: o sucesso externo não corrige experiências internas de inadequação. Nunca corrigiu. Nunca vai corrigir. 

Não porque o sucesso não seja real. Mas porque a sensação de inadequação não está avaliando o sucesso. Está respondendo a uma narrativa instalada antes de qualquer conquista profissional ser possível. Uma narrativa sobre o que o sujeito precisa ser para merecer amor, reconhecimento e pertencimento. 

Quando uma criança cresce num ambiente onde o afeto é condicionado ao desempenho, onde ser amada depende de tirar notas altas, de não decepcionar, de ser o orgulho da família, ela aprende uma equação que parece lógica mas é emocionalmente devastadora: meu valor depende do que eu entrego. 

O adulto que carrega essa equação não vai se curar de uma promoção. Porque a promoção alimenta a equação por um momento e depois a desloca para o próximo nível. O problema nunca foi a falta de conquistas. Foi a crença de que as conquistas determinam o valor. 

E essa crença não é racional. Não foi escolhida. Não responde a argumentos. Foi formada por experiências emocionais repetidas, numa época em que não havia recursos para questionar o ambiente que as produzia. 

Por isso a pergunta que o título deste artigo deixa suspensa é a mais importante: até que ponto a insegurança fala do cargo que você ocupa? E até que ponto ela continua respondendo à criança que aprendeu que precisava merecer amor? 

Por Que Compreender o Rótulo Não É Suficiente


Muitos profissionais chegam ao tema da síndrome do impostor por um caminho que parece suficiente: identificam o fenômeno, reconhecem o padrão, sentem o alívio de perceber que outros também vivem isso. E param aí. 

O problema é que nomear o padrão não o dissolve. Saber que se tem síndrome do impostor não impede que ela apareça na próxima reunião importante, na próxima oportunidade, no próximo momento em que alguém deposita uma expectativa real. 

Isso acontece porque o nível em que o padrão opera é anterior ao nível em que o rótulo chega. O ideal do eu que Freud descreveu não é convencido por um artigo. O Falso Self que Winnicott mapeou não se dissolve por uma tomada de consciência. A tirania do dever que Horney nomeou não recua diante de uma decisão racional de ser mais gentil consigo mesmo. 

Esses mecanismos foram formados por experiências emocionais repetidas, em camadas do psiquismo que antecederam a linguagem. E só são reorganizados por experiências emocionais igualmente profundas, que chegam ao nível onde o padrão foi instalado. 

O Que o Trabalho Analítico Oferece


A Psicanálise cria o espaço onde a história por trás da insegurança pode ser rastreada com a profundidade que ela exige. Não para justificar o padrão, não para eliminá-lo pela força, mas para compreender o que ele está protegendo e de onde vem essa necessidade de proteção. 

Quando o sujeito consegue elaborar a experiência original que instalou a crença de que precisa merecer para pertencer, quando a relação entre desempenho e valor é questionada não apenas intelectualmente mas emocionalmente, algo muda. O ideal do eu não desaparece, mas perde a tirania. O Falso Self não é destruído, mas o Verdadeiro Self começa a ter espaço para existir junto com ele. 

A tirania do dever não é silenciada de uma vez. Mas começa a ser reconhecida pelo que realmente é: uma aprendizagem antiga, não uma verdade sobre quem você é. 

A Hipnoterapia Clínica, integrada ao trabalho analítico pelo Método A.R.Q., amplia esse acesso de forma significativa. No estado hipnótico, as camadas onde o ideal do eu foi construído, onde a equação entre valor e desempenho foi gravada, onde a voz que diz que você não merece foi instalada antes mesmo de haver palavras para nomear o que estava sendo aprendido, tornam-se mais acessíveis à elaboração e à ressignificação. 

Não se trata de convencer o sujeito de que é suficiente. Trata-se de acessar o nível onde ele aprendeu que não era. E oferecer a esse nível uma experiência diferente: a de que pertencer não precisa ser merecido. A de que existir já é suficiente. 

Considerações Finais


Se você leu até aqui reconhecendo a voz que não silencia com as conquistas, a sensação de que é uma questão de tempo até ser descoberto, o impulso de minimizar o que foi alcançado antes que alguém perceba que não deveria estar ali, a primeira coisa importante de saber é que essa voz não está avaliando sua competência. 

Ela está obedecendo a uma narrativa muito mais antiga do que qualquer cargo que você ocupou. 

Clance e Imes descreveram o fenômeno com precisão e mostraram que o medo do sucesso é tão central quanto o medo do fracasso. Freud mostrou que o ideal do eu constrói uma distância que nenhuma conquista fecha sozinha. 

Winnicott mostrou que o sucesso conquistado pelo Falso Self não é reconhecido pelo Verdadeiro Self como próprio. Horney mostrou que a tirania do dever não é autocrítica saudável: é uma condenação instalada por um ambiente que condicionou o amor ao desempenho. 

Nenhum desses autores disse que a sensação de não ser suficiente define quem você é. Todos eles, por caminhos diferentes, apontaram para a mesma direção: essa sensação tem origem. E o que tem origem pode ser compreendido. E o que pode ser compreendido, com o suporte e a profundidade adequados, pode ser transformado. 

O cargo pode continuar mudando. Mas a voz não precisa acompanhar cada mudança para sempre. 

Referências Bibliográficas

CLANCE, P. R. "The Impostor Phenomenon: Overcoming the Fear That Haunts Your Success." Atlanta: Peachtree Publishers, 1985. 
CLANCE, P. R.; IMES, S. A. The imposter phenomenon in high achieving women: dynamics and therapeutic intervention. "Psychotherapy: Theory, Research and Practice", v. 15, n. 3, p. 241-247, 1978. 
FREUD, S. "Introdução ao narcisismo" (1914). In: Obras Completas, vol. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 
HORNEY, K. "Neurose e desenvolvimento humano: a luta pela auto-realização" (1950). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. 
WINNICOTT, D. W. "O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional" (1965). Porto Alegre: Artmed, 1983. 

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