Douglas Gonçalves | Psicanalista & Hipnoterapeuta Clínico - Garibadi - RS
Por Que a Seleção Mexe Com o Que Há de Mais Profundo em Nós
Autoconhecimento

Por Que a Seleção Mexe Com o Que Há de Mais Profundo em Nós

Não é força de expressão. É literal. Escritórios esvaziam, famílias se reúnem, bares enchem horas antes do apito inicial. O STF declarou ponto facultativo. Pessoas que não sabem a posição de um meia-atacante vão parar o que estão fazendo para assistir ao jogo. E você provavelmente vai fazer o mesmo. A pergunta que quase ninguém faz nesse momento é simples e incômoda: por quê? Por que um jogo de futebol tem o poder de suspender a vida cotidiana de 215 milhões de pessoas? Por que uma bola que entra numa rede pode fazer um adulto chorar, gritar, abraçar um desconhecido? Por que uma derrota em campo pode deixar alguém de mau humor por dias? Isso não tem explicação no futebol. A explicação está em você.

Introdução

Em 1921, Sigmund Freud publicou um texto que poucos associariam a uma Copa do Mundo. O título era "Psicologia das Massas e Análise do Ego", e o argumento central era perturbador: quando o ser humano se integra a um grupo, algo muda profundamente na sua estrutura psíquica. O indivíduo não desaparece, mas é atravessado por algo maior do que ele mesmo. Suas emoções se amplificam. Sua capacidade crítica se reduz. E ele passa a sentir, com intensidade que sozinho jamais experimentaria, tudo o que o grupo sente. 
Freud não estava pensando em futebol. Mas poderia estar.
Porque o que acontece numa tarde de Brasil e Japão não é apenas esporte. É um dos fenômenos psíquicos mais poderosos que a vida contemporânea ainda oferece: a experiência de ser parte de algo muito maior do que si mesmo, de dissolver temporariamente as fronteiras do eu individual e habitar, por noventa minutos, um corpo coletivo que respira junto, sofre junto, exulta junto.
Esse fenômeno não começa quando o árbitro apita. Ele começa muito antes. E termina muito depois. Este artigo é uma tentativa de compreender o que realmente está acontecendo quando a Seleção entra em campo.

 

O Campo Como Palco do Inconsciente Coletivo

Carl Gustav Jung desenvolveu ao longo de sua obra um conceito que a psicologia ainda não absorveu por completo: o inconsciente coletivo. Para Jung, além do inconsciente pessoal, formado pelas experiências individuais de cada sujeito, existe uma camada mais profunda e mais antiga, compartilhada por toda a humanidade. Uma herança psíquica que não é aprendida, mas herdada. Que não pertence a ninguém em particular, mas a todos ao mesmo tempo.
Nessa camada vivem os arquétipos: imagens e padrões primordiais que emergem nas mitologias, nas religiões, nos sonhos e, como Jung nunca chegou a escrever explicitamente mas a psicologia analítica contemporânea desenvolveu, nos grandes rituais coletivos da modernidade.
O futebol é um desses rituais.
Quando a Seleção entra em campo, não são apenas onze jogadores disputando uma partida. Do ponto de vista do inconsciente coletivo, é o arquétipo do herói que entra em cena. É a reencenação de um drama primordial: o grupo que enfrenta o adversário, que atravessa o perigo, que pode vencer ou ser derrotado. A tensão que você sente nos minutos finais de um jogo apertado não é uma resposta racional à probabilidade de um placar. É uma resposta arcaica, inscrita há milênios na estrutura psíquica humana, ao drama do herói diante do perigo.
O campo de futebol é, nesse sentido, um palco do inconsciente coletivo. E o que acontece nele ressoa em camadas muito mais profundas do que a consciência alcança.

 

A Massa Que Você Se Torna Sem Perceber

Freud observou algo que continua sendo desconcertante: quando o indivíduo se integra a uma massa, a fronteira entre o eu e o outro se dissolve de forma que ele próprio não percebe. Os sentimentos que seriam seus se amplificam ao serem compartilhados. O que seria uma emoção pessoal se torna uma emoção coletiva, e retorna ao indivíduo com uma intensidade que ele sozinho jamais produziria.
É por isso que a mesma pessoa que assistiria a uma final de xadrez com expressão neutra se levanta do sofá gritando quando o Brasil marca um gol. Não é que o futebol seja mais emocionante. É que o futebol cria as condições para que a massa se forme, e a massa amplia cada sentimento até uma escala que ultrapassa o individual.
Elias Canetti, em *Massa e Poder*, descreveu esse fenômeno com uma precisão quase poética: na massa, o indivíduo sente como se sentisse a si mesmo, subitamente, tudo se passa como no interior de um único corpo. O medo individual, que cada um carrega como fardo solitário, temporariamente desaparece. O que resta é o corpo coletivo, que não tem medo da mesma forma que o indivíduo tem, porque na massa o perigo é compartilhado e o prazer é multiplicado.
Isso explica o que acontece nos bares, nas salas de estar, nas praças públicas durante o jogo. As pessoas não estão apenas assistindo juntas. Estão se tornando, temporariamente, uma coisa só. E essa experiência de unidade, por mais breve que seja, responde a uma das necessidades mais profundas da psique humana: a necessidade de pertencer.

 

Por Que Você É Brasileiro Às 14h de Uma Segunda-feira

Roberto DaMatta passou décadas tentando responder a uma pergunta aparentemente simples: o que faz o Brasil, Brasil? Não no sentido geográfico ou político. No sentido de identidade. O que faz com que alguém se sinta brasileiro?
A resposta que DaMatta encontrou não estava nas instituições, nas leis ou na história oficial. Estava nos rituais. No Carnaval, nas procissões, nas festas populares. E, acima de tudo, no futebol.
Para DaMatta, o futebol e as conquistas das Copas do Mundo são pontos de referência para a construção de uma história positiva do Brasil. Uma história que os brasileiros podem contar para si mesmos sem vergonha, ressentimentos ou mágoas. Num país onde tantas narrativas coletivas são marcadas pela desigualdade, pela frustração e pelo sentimento de incompletude, a Seleção oferece algo raro: um espaço onde ser brasileiro é motivo de orgulho sem ambivalência.
Isso tem peso psíquico real. A identidade nacional não é apenas um construto cultural. É uma âncora do self. É parte da resposta à pergunta fundamental que todo ser humano carrega: quem sou eu?
Quando a Seleção joga, essa âncora é ativada. Você não está apenas torcendo por um time. Está, em algum nível que a consciência mal alcança, reafirmando parte do que você é. O verde e amarelo não são apenas cores. São símbolos que condensam pertencimento, história, esperança e identidade de uma forma que nenhum argumento racional consegue substituir.

 

O Que a Vitória e a Derrota Fazem Com Você

Existe uma assimetria desconcertante na forma como processamos o resultado de um jogo da Seleção.
A vitória gera euforia, mas passa com uma velocidade surpreendente. A derrota, especialmente numa eliminação, pode deixar um rastro que dura dias. Pessoas que nunca pisaram num estádio ficam de mau humor. Algumas choram. Algumas relatam dificuldade de dormir. E quando alguém pergunta "mas por quê?", a resposta honesta raramente aparece.
Do ponto de vista psicanalítico, o que acontece numa derrota da Seleção não é apenas a frustração de um resultado esportivo. É o colapso temporário de uma identificação coletiva. O grupo que era um único corpo emocional se fragmenta. A âncora de identidade que o jogo havia ativado é subitamente ameaçada. E o luto que se segue, por menor que pareça, tem a estrutura de qualquer perda: desorientação, irritação, tristeza, necessidade de elaboração.
Freud já havia identificado que a identificação coletiva com um líder ou com um ideal comum é o cimento que mantém a massa unida. Quando esse ideal é golpeado, a massa não se dissolve apenas. Ela sofre. E cada membro, ao retornar à sua individualidade, carrega consigo uma parcela desse sofrimento coletivo que precisa ser processada de forma individual.
É por isso que a derrota pesa mais do que a vitória alivia. A vitória confirma o que se esperava. A derrota confronta com o que não se queria saber.

 

O Que o Futebol Revela Que Você Não Consegue Ver no Espelho

Aqui está o que este artigo realmente quer dizer.
O futebol é uma metáfora. Não do jogo em si, mas de você. A intensidade com que você torce, o nível de sofrimento que uma derrota produz, a euforia que uma virada desperta, tudo isso revela algo sobre a sua estrutura interna que a vida cotidiana raramente torna visível.
A pessoa que não consegue tolerar a tensão dos últimos minutos de um jogo apertado e precisa sair do ambiente talvez também não consiga tolerar a tensão de conflitos interpessoais que ficam sem resolução. A pessoa que se fecha depois de uma derrota, que não quer conversar, que precisa de um tempo antes de voltar à normalidade, talvez tenha aprendido cedo que perdas precisam ser processadas em silêncio e sozinhas. A pessoa que se entrega completamente à euforia coletiva, que só se sente plena quando está num grupo que celebra junto, talvez carregue uma dificuldade de encontrar satisfação em experiências individuais e solitárias.
O campo revela padrões. O que acontece dentro de você durante um jogo não é uma exceção à sua forma de ser. É uma expressão dela, amplificada pelo contexto e pelo volume emocional que o futebol oferece.
Jung chamou de sombra o conjunto de aspectos do psiquismo que o sujeito não reconhece como seus e projeta para fora. No futebol, a sombra aparece com clareza desconcertante: no ódio pelo adversário que excede em muito qualquer ameaça real, na raiva pelo árbitro que vai além do erro de julgamento, no desprezo pelo jogador que errou que carrega mais do que frustração esportiva. Essas projeções são dados. Elas dizem algo sobre o que vive dentro, não fora.

 

Pertencer É Uma Necessidade, Não Uma Fraqueza

Uma das distorções que a cultura contemporânea produziu é a de que a necessidade de pertencimento é uma forma de dependência emocional a ser superada. Que o indivíduo maduro é aquele que não precisa de grupo, que sustenta sua identidade de forma completamente autônoma, que não é afetado pelo coletivo.
Essa ideia é, do ponto de vista psicanalítico, equivocada.
O ser humano é constitutivamente gregário. A necessidade de pertencer não é uma fraqueza do caráter. É uma necessidade tão fundamental quanto a necessidade de afeto, de segurança ou de reconhecimento. O sujeito que se diz completamente indiferente ao coletivo geralmente não alcançou uma maturidade maior. Ele aprendeu, em algum momento da história, que depender do grupo era perigoso, e construiu uma defesa que se parece com independência mas é, na verdade, isolamento.
O futebol, nesse sentido, oferece algo que a vida moderna tornou cada vez mais raro: uma experiência legítima e socialmente aceita de pertencimento sem exigência de desempenho individual. Você não precisa ser o melhor para fazer parte da torcida. Não precisa provar nada. Não precisa merecer. Precisa apenas estar lá, torcendo junto.
Essa simplicidade tem uma profundidade que passa despercebida. Para muitas pessoas, a tarde de um jogo da Seleção é um dos poucos momentos em que a necessidade de pertencimento é satisfeita sem o custo habitual que ela exige na vida pessoal e profissional.

 

O Que Muda Quando Você Se Reconhece no que Sente

Torcer é involuntário. O que você faz com o que sente enquanto torce pode ser uma escolha.
A psicologia analítica de Jung propõe um processo que ele chamou de individuação: o caminho pelo qual o sujeito integra, ao longo da vida, os aspectos conscientes e inconscientes da sua psique, tornando-se progressivamente mais inteiro e mais autêntico. Esse processo não acontece em isolamento. Acontece em contato, em relação, nas experiências que ativam camadas do psiquismo que a rotina não toca.
O futebol pode ser, para quem tem olhos para isso, uma dessas experiências. Não o futebol como escapismo, como forma de não pensar no que precisa ser pensado. Mas o futebol como espelho: um espaço onde emoções que normalmente ficam contidas emergem com uma intensidade que permite ser observadas.
O que você sente quando a Seleção perde não é apenas decepção esportiva. É um dado sobre como você processa perdas. O que você sente quando ela vira um jogo nos últimos minutos não é apenas alívio. É um dado sobre como você sustenta esperança em situações de adversidade. O que você sente quando está no meio de uma torcida que celebra junto não é apenas alegria. É um dado sobre o que a experiência de pertencimento faz com você.
Esses dados, observados com honestidade, podem ser o começo de uma conversa muito mais importante do que qualquer análise tática.

 

Considerações Finais

Hoje, às 14h, você vai parar o que está fazendo.
E está tudo bem. Porque o que vai acontecer naquelas duas horas não é apenas um jogo. É uma das poucas ocasiões em que a cultura oferece permissão para sentir em público, para pertencer sem condições, para ser atravessado por algo maior do que a vida individual.
O que a psicanálise pede não é que você pare de torcer. É que você, ao torcer, preste atenção no que sente. Porque o que emerge num jogo de Copa não veio de lugar nenhum. Veio de dentro. E o que vem de dentro sempre tem algo a dizer sobre quem você é e sobre o que ainda precisa ser olhado.
A Seleção vai entrar em campo. O inconsciente também.
E se, depois do jogo, algo do que você sentiu ficar ecoando de um jeito que não passa com a virada do placar, talvez valha a pena levar isso para além do esporte.

 

Referências Bibliográficas

CANETTI, E. *Massa e Poder* (1960). São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
DAMATTA, R. *O que faz o Brasil, Brasil?* Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
FREUD, S. *Psicologia das massas e análise do ego* (1921). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
JUNG, C. G. *Os arquétipos e o inconsciente coletivo.* In: Obras Completas, vol. 9/I. Petrópolis: Vozes, 2016.

 

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