Douglas Gonçalves | Psicanalista & Hipnoterapeuta Clínico - Garibadi - RS
Por Que Você Sabota Tudo Quando Está Quase Lá
Autoconhecimento

Por Que Você Sabota Tudo Quando Está Quase Lá

Por Que Você Sabota Tudo Quando Está Quase Lá Você sabe como é. Meses de trabalho. De esforço. De resistir quando tudo dentro de você queria desistir. E então, quando finalmente o caminho começa a se abrir, quando o resultado começa a aparecer, quando a conquista está ao alcance da mão, algo acontece. Não é o mundo que atrapalha. Não é azar, não é o momento errado, não é falta de oportunidade. Você mesmo atrapalha. De um jeito que não consegue explicar depois. E se alguém perguntasse o porquê, você responderia com um encolher de ombros e a única palavra que aparece nesses momentos: não sei. Você não enviou a proposta. Não terminou o projeto. Criou uma briga no relacionamento que estava finalmente indo bem. Faltou na reunião mais importante. Adiou a decisão até o prazo vencer. E ficou olhando para o resultado com uma mistura de vergonha e confusão que não passa com o tempo.

Introdução

Em 1916, Sigmund Freud publicou um texto que descrevia um fenômeno clínico desconcertante: pessoas que adoeciam, colapsavam ou destruíam o que haviam construído exatamente no momento em que suas conquistas se tornavam reais. O texto se chamava "Os que Fracassam ao Triunfar", e a pergunta que ele colocava era tão perturbadora quanto precisa: por que alguém sabotaria o próprio sucesso? 
A resposta que Freud encontrou não tinha nada a ver com incompetência, preguiça ou má sorte. Tinha a ver com o inconsciente. Com crenças instaladas tão cedo e tão profundamente que o sujeito não as reconhece como crenças, mas as experimenta como realidade.
Mais de cem anos depois, o fenômeno que Freud descreveu na clínica psicanalítica foi confirmado por pesquisadores de diferentes áreas: neurocientistas, psicólogos cognitivos, estudiosos do desenvolvimento humano. Todos chegaram, por caminhos diferentes, à mesma conclusão que Freud havia alcançado: a autossabotagem não é uma falha de caráter. É o sistema psíquico fazendo exatamente o que aprendeu a fazer.
Este artigo é uma tentativa de compreender o que está por trás desse padrão. Não para oferecer técnicas de superação, mas para iluminar o mecanismo que opera nas sombras. Porque o que não se vê não pode ser transformado.

 

O Que É, de Fato, a Autossabotagem

A palavra autossabotagem circula com frequência nas redes sociais e nos conteúdos de desenvolvimento pessoal. Mas ela raramente é explicada com a profundidade que o fenômeno exige.
Autossabotagem não é procrastinação por preguiça. Não é distração por falta de foco. Não é ausência de motivação que um bom coach poderia corrigir. É algo estruturalmente diferente: é o inconsciente agindo em sentido contrário ao que a consciência deseja, com uma consistência e uma precisão que nenhuma explicação superficial alcança.
A característica que define a autossabotagem e a distingue de outros padrões é o timing. Ela não aparece no início das tentativas, quando o fracasso ainda seria compreensível. Aparece quando o sucesso está próximo. Quando o risco não é mais o fracasso, mas a chegada. É como se o sistema reconhecesse o perigo não na distância do objetivo, mas na proximidade dele.
Freud foi o primeiro a nomear essa lógica com precisão clínica. E o que ele descobriu é que esse timing não é acidental. É o sinal mais claro de que o que opera ali não é incompetência, mas algo muito mais antigo e muito mais profundo do que qualquer decisão consciente.

 

A Compulsão Que Ninguém Escolheu

Em 1920, Freud publicou "Além do Princípio do Prazer" e introduziu um conceito que mudou a forma como a psicanálise compreende o sofrimento humano: a compulsão à repetição. 
O princípio do prazer diz que o ser humano busca naturalmente a satisfação e evita o sofrimento. Mas Freud observou, repetidamente, que as pessoas reproduzem padrões de sofrimento mesmo quando têm plenas condições de evitá-los. Repetem relacionamentos que as machucam. Repetem fracassos que as envergonham. Repetem comportamentos que sabem, conscientemente, que vão contra seus próprios interesses.
A explicação que Freud encontrou não estava no princípio do prazer. Estava numa força mais antiga e mais poderosa, que ele chamou de compulsão à repetição: a tendência do psiquismo a reproduzir padrões conhecidos, mesmo que dolorosos, porque o familiar oferece uma forma de controle que o novo e o desconhecido não oferecem.
Aplicado à autossabotagem, esse mecanismo explica por que a proximidade do sucesso, em vez de acelerar o movimento em direção a ele, frequentemente o interrompe. O sucesso é desconhecido. O fracasso, para quem tem história de fracassos, é familiar. E o familiar, mesmo quando dói, oferece ao sistema psíquico algo que o desconhecido não oferece: a sensação de saber onde se está.
Isso não é fraqueza. É a inteligência de um sistema que aprendeu a sobreviver em determinado ambiente e não recebeu, ainda, a informação de que esse ambiente mudou.

 

O Falso Self Que Protege e Aprisiona

Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, passou décadas observando como o ambiente dos primeiros anos de vida molda a estrutura interna do sujeito. E uma das suas descobertas mais relevantes para compreender a autossabotagem é a distinção entre o que ele chamou de Verdadeiro Self e Falso Self.
O Verdadeiro Self é a fonte dos impulsos espontâneos, autênticos, criativos. É o lugar onde o sujeito existe de forma genuína, onde seus desejos são seus e não o reflexo do que o ambiente exigiu. O Falso Self é uma estrutura defensiva construída quando o ambiente falhou: quando o cuidador não conseguiu responder de forma consistente às necessidades reais da criança, o sistema aprendeu a se adaptar, a suprimir o espontâneo e a apresentar ao mundo uma versão de si mesmo que minimizasse o risco de rejeição ou punição.
O Falso Self não é vilão. É uma defesa. E durante a infância, frequentemente foi a defesa que tornou possível a sobrevivência emocional. O problema aparece na vida adulta, quando essa defesa continua operando mesmo em contextos onde ela não é mais necessária.
Porque o Falso Self não sabe distinguir o passado do presente. Ele reconhece o padrão de proximidade do risco, aquele ponto em que o sujeito está prestes a ser verdadeiramente visto, verdadeiramente reconhecido, verdadeiramente bem-sucedido, e reage como sempre reagiu: interrompendo. Retrocedendo. Sabotando.
Winnicott descreveu que a existência prolongada por meio do Falso Self torna a vida esvaziada de sentido e permeada por um senso de irrealidade. A pessoa que se sabota repetidamente reconhece essa sensação com precisão: a de estar vivendo uma vida que não é inteiramente dela, de nunca chegar onde poderia chegar, de sentir que algo sempre intervém quando o caminho começa a se abrir.
Esse algo não é abstrato. Tem origem, tem estrutura e tem endereço. Não está no mundo. Está dentro.

 

A Ansiedade Fundamental Que Horney Descreveu

Karen Horney, psicanalista alemã que trabalhou por décadas em Nova York, chegou a uma conclusão que complementa o trabalho de Freud e Winnicott de forma precisa: a autossabotagem não é apenas um fenômeno individual. É também um fenômeno cultural.
Em "A Personalidade Neurótica do Nosso Tempo", publicado em 1936, Horney argumentou que a neurose contemporânea não tem sua origem apenas em traumas individuais ou em dinâmicas familiares específicas. Ela emerge da tensão entre o que a cultura promete e o que ela efetivamente oferece: a promessa de que qualquer um pode vencer se trabalhar o suficiente, e a realidade de que as condições para vencer são distribuídas de forma profundamente desigual.
Dessa tensão nasce o que Horney chamou de ansiedade fundamental: uma sensação difusa e persistente de desamparo diante de um mundo percebido como hostil. Para lidar com essa ansiedade, o sujeito desenvolve estratégias defensivas que Horney identificou como padrões neuróticos. Entre eles, a compulsão por aprovação, que leva a pessoa a sabotar qualquer conquista que possa gerar inveja ou desaprovação do outro. A necessidade de perfeição, que paralisa antes que qualquer resultado imperfeito possa ser entregue. E a submissão que impede o avanço real, porque avançar significa assumir um espaço que o sujeito não aprendeu a ocupar.
O que Horney traz de único é a observação de que esses padrões não são apenas idiossincrasias pessoais. São respostas aprendidas a um ambiente que, ao mesmo tempo, exige desempenho e pune o sucesso com comparação, crítica e isolamento. A autossabotagem, nessa leitura, é também uma forma de não se destacar demais. De não ocupar um espaço que o ambiente original nunca permitiu.

 

A Crença Que Opera Antes do Pensamento

Albert Bandura, psicólogo canadense e um dos pesquisadores mais influentes do século XX, desenvolveu ao longo de décadas um conceito que traduz para a linguagem da psicologia contemporânea o que Freud e Horney descreveram em termos psicanalíticos: a autoeficácia.
Autoeficácia é a crença na própria capacidade de realizar determinada tarefa ou alcançar determinado resultado. Não a capacidade real, objetiva e mensurável. A crença nessa capacidade. E o que Bandura demonstrou, com evidências que atravessaram décadas de pesquisa, é que essa crença influencia o comportamento de forma mais determinante do que qualquer habilidade concreta.
O sujeito com baixa autoeficácia não é necessariamente menos capaz. Ele acredita ser menos capaz. E age de acordo com essa crença, evitando desafios, abandonando esforços diante das primeiras dificuldades e interpretando o fracasso como confirmação de uma incapacidade que, na verdade, é uma narrativa internalizada, não um dado objetivo.
O que Bandura acrescenta à compreensão da autossabotagem é a precisão sobre onde essa crença se forma: nas experiências repetidas de sucesso ou fracasso na infância e adolescência, na forma como as figuras de referência responderam às tentativas do sujeito e nas mensagens, verbais e não verbais, que o ambiente transmitiu sobre o que esse sujeito era capaz ou não de fazer.
Em outras palavras, a crença que opera antes do pensamento e que produz a autossabotagem não foi inventada agora. Ela foi aprendida. E o que foi aprendido pode ser desaprendido. Mas não por força de vontade. Por um processo que vai à origem da aprendizagem.

 

O Que a Autossabotagem Está Protegendo

Aqui está o ponto que raramente aparece nas discussões sobre autossabotagem: o comportamento não é aleatório. Ele está protegendo algo.
Do ponto de vista psicanalítico, a autossabotagem é sempre uma defesa. Não um defeito, não uma sabotagem no sentido literal, mas um mecanismo que o sistema psíquico utiliza para evitar algo que, em algum momento da história emocional, foi percebido como ameaça.
Para alguns, o que a autossabotagem protege é a narrativa de não ser suficiente. Uma narrativa que dói, mas que é familiar. Que organiza o mundo de uma forma conhecida. Que permite ao sujeito dizer: eu sabia que não daria certo. Essa previsibilidade tem um custo enorme, mas oferece algo que o sucesso imprevisto não oferece: a sensação de controle sobre o próprio destino.
Para outros, o que a autossabotagem protege é a relação com o ambiente original. Crescer, avançar, superar os limites que a família ou o grupo de origem nunca ultrapassou pode gerar, no inconsciente, uma sensação de traição. Como se o sucesso fosse um abandono disfarçado. Como se alcançar o que os outros não alcançaram criasse uma distância que o sistema percebe como perigo.
Para outros ainda, o que a autossabotagem protege é o medo do que vem depois do sucesso. O sucesso traz visibilidade, responsabilidade, expectativas. Para alguém que aprendeu que ser visto é perigoso, que ter é arriscar perder, que avançar é convidar o fracasso de uma altura maior, o ponto antes da chegada é exatamente onde o sistema freia.
Nenhum desses mecanismos é consciente. Nenhum deles pode ser desativado por uma decisão racional. Mas todos eles podem ser identificados. E identificá-los é o primeiro passo para deixar de ser governado por eles.

 

Por Que Entender Não É Suficiente

Uma das experiências mais frustrantes para quem percebe seu próprio padrão de autossabotagem é a seguinte: compreender o mecanismo não o dissolve. A pessoa lê sobre compulsão à repetição e se reconhece. Ouve sobre Falso Self e pensa: é exatamente isso. Entende que sua autoeficácia foi comprometida por experiências precoces. E na semana seguinte, sabota de novo.
Isso não é fraqueza. É a natureza do inconsciente.
O inconsciente não é convencido por argumentos. Ele não lê livros de autoajuda. Não responde a decisões tomadas num domingo à noite com a melhor das intenções. Ele foi formado por experiências emocionais repetidas, gravadas numa linguagem que é anterior à palavra, anterior ao pensamento, anterior a qualquer capacidade de escolha consciente. E só pode ser reorganizado por experiências emocionais igualmente profundas.
Bandura apontou que a autoeficácia se constrói e se reconstrói por meio de experiências de êxito gerenciadas, de modelagem por figuras de referência e de estados fisiológicos e emocionais que o sujeito aprende a interpretar de forma diferente. Em outras palavras, a crença muda quando a experiência muda. Não quando o argumento muda.
É aqui que o trabalho terapêutico se torna indispensável. Não porque a pessoa seja fraca demais para mudar sozinha. Mas porque o nível em que o padrão foi instalado é o nível em que ele precisa ser acessado para ser transformado.

 

O Que o Trabalho Analítico e a Hipnoterapia Oferecem

A Psicanálise cria o espaço onde o padrão pode ser rastreado até sua origem com a profundidade que ele exige. Não apenas nomeado intelectualmente, mas sentido, elaborado e ressignificado no nível emocional onde opera. O trabalho analítico oferece ao sujeito algo que poucos ambientes oferecem: a experiência de ser visto sem ser julgado, de avançar sem ser punido por isso, de existir de forma genuína sem que o Falso Self precise intervir.
A Hipnoterapia Clínica, integrada ao trabalho analítico pelo Método A.R.Q., amplia esse acesso de forma significativa. No estado hipnótico, as camadas mais profundas onde os padrões de autossabotagem operam tornam-se acessíveis de uma forma que o estado de vigília raramente permite. As crenças instaladas antes da linguagem, o medo do sucesso que não tem nome, a lealdade inconsciente aos limites do ambiente original, a crença de que avançar é perigoso, podem ser acessadas no nível em que foram formadas e ressignificadas com a precisão que esse nível exige.
Não se trata de eliminar a defesa. A defesa teve sua função e merece ser reconhecida por isso. Trata-se de oferecer ao sistema uma atualização: a informação de que o perigo que ela protegia já não existe da forma em que existia. Que é possível avançar sem trair. Que é possível ser visto sem ser punido. Que o sucesso não precisa ser sabotado para ser seguro.
Quando essa atualização acontece no nível onde o padrão foi gravado, algo muda. Não pela força da decisão. Mas pela profundidade do trabalho.

 

Considerações Finais

Se você se reconheceu neste artigo, na briga que criou quando o relacionamento estava bem, no projeto que ficou pela metade quando estava quase pronto, na oportunidade que deixou passar quando estava ao alcance, a primeira coisa importante de saber é que esse padrão não define quem você é.
Ele define o que você aprendeu sobre o que era seguro querer.
Freud mostrou que os que fracassam ao triunfar não são os que menos merecem o sucesso. São frequentemente os que mais trabalharam por ele e que carregam, no inconsciente, uma crença de que merecer não é suficiente. Winnicott mostrou que o Falso Self que interfere no momento da chegada foi construído para proteger, não para destruir.
Horney mostrou que a ansiedade que paralisa não nasceu do nada, mas de um ambiente que prometeu e não sustentou. E Bandura mostrou que a crença de incapacidade não é um fato. É uma narrativa. E narrativas podem ser reescritas.
Mas não sozinhas. E não de uma hora para outra.
O padrão de autossabotagem não é uma sentença. É um sinal. Ele aponta para algo que ainda não foi visto com a atenção que merece. E quando esse algo finalmente recebe essa atenção, em profundidade e com o suporte adequado, o sistema que aprendeu a frear quando estava quase lá começa, lentamente, a aprender que chegar também é possível.

 

Referências Bibliográficas

BANDURA, A. "Self-Efficacy: The Exercise of Control." New York: W. H. Freeman, 1997. 
FREUD, S. "Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico" (1916). Segunda parte: Os que fracassam ao triunfar. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1976. 
FREUD, S. "Além do princípio do prazer" (1920). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1976. 
HORNEY, K. "A personalidade neurótica do nosso tempo" (1936). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. 
WINNICOTT, D. W. "O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional" (1965). Porto Alegre: Artmed, 1983.

 

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