Douglas Gonçalves | Psicanalista & Hipnoterapeuta Clínico - Garibadi - RS
O Excesso de Temer o Futuro e o Passado Que Não Deixa Você Ir
Autoconhecimento

O Excesso de Temer o Futuro e o Passado Que Não Deixa Você Ir

Você estava num momento que deveria ser simples, uma conversa, uma refeição, um instante qualquer do dia, quando a mente escorregou para algo que ainda não aconteceu: uma reunião de amanhã, uma conversa que precisa acontecer, um resultado que ainda não saiu, e o presente sumiu antes de ser vivido, e depois, quando tentava descansar ou simplesmente parar, veio o movimento contrário, algo que já passou voltou com a mesma nitidez de antes, uma situação que o pensamento insiste em revisitar, uma fala que saiu errada, uma decisão que não pode mais ser mudada, e o presente sumiu de novo, agora sugado pelo que ficou para trás, e entre esses dois movimentos, um em direção ao futuro que não chegou e outro em direção ao passado que não foi embora, o único tempo em que qualquer coisa pode de fato ser sentida, decidida ou vivida ficou completamente vazio. Este artigo não oferece técnicas para parar de pensar. Investiga por que a mente aprende a viver fora do agora e o que isso custa a quem vive assim.

Introdução

Existe uma ironia precisa na forma como o ser humano contemporâneo se relaciona com o tempo.
O passado já foi. O futuro ainda não veio. O presente é o único tempo que existe de fato, aquele em que algo pode ser sentido, escolhido ou vivido. E é exatamente o tempo em que a maioria das pessoas passa menos tempo.
Duas forças trabalham em sentidos opostos, mas com o mesmo efeito. A ansiedade puxa a atenção para o que ainda não aconteceu, construindo cenários, antecipando resultados, preparando o sistema nervoso para ameaças que existem apenas como possibilidade. A ruminação puxa a atenção para o que já passou, revisitando situações, reescrevendo diálogos, carregando o peso de algo que o calendário encerrou mas o interior não. Entre as duas, o presente fica vazio. A pessoa existe nele fisicamente, mas não o habita de verdade.
Por que isso acontece com tanta consistência? Por que a mente aprende a escapar do agora com tanta eficiência? E o que acontece com quem vive assim por tempo demais?

 

A Mente Que Antecipa o Que Ainda Não Aconteceu

Daniel Goleman descreveu com precisão o mecanismo que transforma uma preocupação futura numa experiência presente: o sequestro emocional. A amígdala, estrutura cerebral responsável pela detecção de ameaças, não distingue com precisão entre um perigo real e um perigo imaginado. Ela responde a ambos com a mesma intensidade fisiológica.
Quando a mente projeta um resultado negativo, a amígdala dispara como se esse resultado já estivesse acontecendo. O coração acelera. A respiração encurta. O pensamento estreita. O corpo inteiro entra em modo de resposta a uma ameaça que existe apenas como projeção mental. E enquanto isso acontece, o momento presente, aquele em que o perigo não existe de fato, fica completamente inabitado.
A pessoa que vive em estado de ansiedade antecipatória crônica não está sendo pessimista nem fraca. Está com um sistema de detecção de ameaças calibrado para disparar diante de sinais que em outro contexto seriam neutros. E esse sistema, uma vez ativado com frequência, aprende a encontrar ameaças mesmo quando elas não estão presentes. A preocupação deixa de ser sobre o futuro real e passa a ser sobre o futuro construído pela mente em modo de alerta permanente.
O que Goleman identificou vai além da ansiedade pontual: quando as emoções são intensas demais e persistentes, elas se tornam o estado padrão de funcionamento. E quando o estado padrão é a antecipação do pior, o presente perde a capacidade de oferecer qualquer evidência contrária. Cada momento que passa bem é tratado como exceção. Cada ameaça imaginada é tratada como confirmação do que estava sendo temido.

 

O Passado Que Ainda Não Foi

Bessel van der Kolk chegou a uma conclusão que reorganiza completamente a forma de compreender a ruminação: o problema fundamental não é que as pessoas não conseguem esquecer o que aconteceu. É que não conseguem ter a experiência de que aconteceu no passado.
Quando uma experiência difícil não é adequadamente processada, ela não fica armazenada como memória passada. Ela fica suspensa no sistema nervoso como algo ainda em curso. Um tom de voz, um ambiente familiar, uma situação que lembra o que aconteceu antes: qualquer um desses gatilhos pode reativar a experiência inteira, com a mesma intensidade emocional e fisiológica do momento original. O corpo revive o evento como se estivesse acontecendo agora. Essa não é uma questão de pensamento. É uma questão de fisiologia.
Esse mecanismo não se aplica apenas a traumas graves. Aplica-se a qualquer experiência que o sistema nervoso não conseguiu processar e encerrar. Uma conversa que terminou mal e que o pensamento continua reescrevendo. Uma decisão tomada sob pressão que o corpo ainda carrega como tensão. Há períodos que a vida já encerrou no calendário, mas que o interior ainda não fechou de verdade. Para o sistema nervoso, o evento ainda está acontecendo. E enquanto está acontecendo, ele ocupa o presente com uma presença que nenhuma decisão racional consegue simplesmente desligar.
A ruminação, vista por esse ângulo, não é fraqueza de caráter nem falta de força de vontade. É o sistema nervoso tentando processar algo que ainda não foi processado. Ele retorna ao mesmo ponto repetidamente porque ainda está buscando uma resolução que não chegou. E o presente, enquanto isso, continua sendo habitado por algo que já deveria ter ficado para trás.

 

Viver Fora do Agora Sem Perceber

Mark Williams e Danny Penman descreveram o que acontece quando a oscilação entre o futuro temido e o passado não resolvido se torna o modo padrão de funcionamento da mente: ela entra em piloto automático.
O piloto automático é um estado em que os pensamentos correm sem supervisão, carregando a atenção entre memórias do passado e projeções do futuro, enquanto o momento real passa sem ser percebido. A pessoa está fisicamente presente num lugar, mas a mente está em outro tempo. E o mais revelador é que isso acontece sem que ela perceba que está acontecendo.
Williams e Penman identificaram algo que transforma a forma de compreender esse estado: pensamentos não são fatos. São eventos criados pela mente, uma narração interna sobre você e sobre o mundo. Essa narração pode estar completamente desconectada do que está acontecendo agora. A mente em piloto automático produz pensamentos, os trata como realidade e age a partir deles, sem jamais verificar se o que está narrando corresponde ao momento presente.
O custo disso é preciso e acumulativo. Uma pessoa que passa a maior parte do tempo em piloto automático, seja antecipando o futuro com ansiedade ou revisitando o passado com ruminação, não está vivendo o presente. Está vivendo uma versão mental de outros tempos. O presente, o único em que qualquer mudança é possível, passa sem ser habitado. E com o tempo, a capacidade de perceber o que está acontecendo agora, de sentir o que se sente agora, de responder ao que existe agora, vai se estreitando sem que se perceba.

 

O Único Tempo em Que a Vida Acontece

Viktor Frankl chegou ao presente por um caminho que nenhum dos outros percorreu: pela experiência do limite absoluto.
Nos campos de concentração nazistas, onde o passado havia sido destruído e o futuro era incerto a cada hora, Frankl descobriu algo que sua prática clínica anterior não havia ensinado com a mesma força: o presente é o único tempo em que o ser humano pode responder ao que a vida lhe apresenta. O futuro não pode ser controlado. O passado não pode ser alterado. O presente é o único lugar onde ainda é possível fazer algo, responder, escolher.
Frankl distinguiu com precisão dois estados que frequentemente são confundidos. A tensão existencial saudável é aquela que orienta a vida em direção a algo que importa: uma tarefa, uma pessoa, um sentido. Ela puxa o sujeito para o presente porque é no presente que a resposta acontece. A ansiedade antecipatória, ao contrário, paralisa porque projeta catástrofes sem oferecer nenhuma ação possível no momento atual. Ela afasta o sujeito do presente porque é exatamente no presente que a ameaça imaginada não existe.
O que Frankl oferece não é alívio fácil nem otimismo de ocasião. É algo mais exigente: a responsabilidade de estar no único tempo em que ainda é possível fazer algo. Retornar ao presente não é uma conquista de quem não tem problemas. É uma escolha disponível a qualquer momento, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Mesmo quando o futuro assusta e o passado dói, o presente continua existindo como território real onde a vida pode de fato acontecer.

 

O Que Significa Estar Aqui de Verdade

Habitar o presente não é esvaziar a mente. O futuro vai continuar sendo antecipado. O passado vai continuar sendo revisitado. Isso é parte do funcionamento humano e tem sua função. A diferença está em perceber quando a mente escorregou para outro tempo e em conseguir retornar, sem julgamento, ao que está acontecendo agora.
A clínica sugere algumas observações que não são diagnóstico nem prescrição. São convites à atenção honesta sobre o próprio funcionamento.
Com que frequência você percebe que estava pensando em algo que ainda não aconteceu enquanto deveria estar em outro lugar? Quando revisita uma situação passada, é para aprender algo que ainda não aprendeu, ou é para reescrevê-la sem poder mudá-la? O quanto do sofrimento que sente agora está acontecendo no presente, e o quanto está acontecendo numa projeção ou numa memória?
Essas perguntas não têm resposta certa. Têm direção: a direção de observar onde a mente está antes de tentar mudá-la. O trabalho de retornar ao presente começa exatamente aí, no momento em que se percebe que se estava em outro lugar.

 

Considerações Finais

A conversa que a mente abandonou pelo futuro. O passado que voltou enquanto você tentava descansar.
Esses dois movimentos vão continuar acontecendo. O que muda, quando se compreende o que está por baixo deles, não é a frequência com que aparecem. É a relação que se tem com eles quando aparecem.
Goleman descreveu como a mente sequestrada pela ansiedade trata o futuro imaginado como ameaça real, com toda a resposta fisiológica que uma ameaça real produziria. Van der Kolk demonstrou que o sistema nervoso pode continuar vivendo o passado como presente até que ele seja adequadamente processado. Williams e Penman identificaram que o piloto automático é um estado aprendido que rouba o presente sem que se perceba. Frankl chegou à mesma conclusão por outro caminho: o presente é o único tempo em que qualquer resposta ainda é possível, mesmo quando o futuro assusta e o passado dói.
O futuro vai continuar chegando. O passado não vai a lugar nenhum. E o presente, entre os dois, continuará sendo o único lugar onde você pode de fato estar.

 

Referências Bibliográficas

FRANKL, V. E. "Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração." 38. ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2015.
GOLEMAN, D. "Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente" (1995). Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
VAN DER KOLK, B. "O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma." Rio de Janeiro: Sextante, 2020.
WILLIAMS, M.; PENMAN, D. "Atenção plena: mindfulness — como encontrar a paz em um mundo frenético."Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

 

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